Publicado por: Verônica Almeida | Maio 2, 2009

Foca!

   Lembro de um episódio engraçado entre a infância e o início da adolescência. Numa tarde qualquer eu e minha irmã brigamos por um motivo qualquer, que já não recordo. Deve ter sido algo extremamente relevante. Meu primo presenciara tudo com um sorriso meio sem graça.

   E eu sentia muita raiva, precisava ofendê-la, me vingar de qualquer maneira, ali mesmo, antes que toda a raiva passasse. Precisava dizer impropérios que ela jamais ouvira, algo que a machucasse, que expressasse tudo o que eu sentia.

   Eu precisava de um palavrão, de um apelido. Espera!  Palavrão não adiantaria, ela não se ofenderia, já conhecia todos. Apelido? Já havia se acostumado.

   Pronunciei uma palavra, a primeira que veio e eu nem mesmo a conhecia:

 - Neófita.

- O quê?

- Neófita!

- O que é isso?

- É você, Neófita!                                                                                     

   Achei que se repetisse a palavra algumas vezes ela ficaria inibida.

 - Olha Verônica, vou olhar no dicionário agora, se for um palavrão vou contar pra mãe.

  Meu primo ria desesperadamente. E eu torcendo para que fosse algo horrível, mesmo sabendo que me ferraria.

   Com o dicionário na mão ela veio em minha direção e leu alto:

 - Você deu sorte! “Neófito: Pessoa que recebe ou está para receber batismo, recém-admitido numa corporação; principiante, novato.”                                                                  

   Humm, não deu certo. Precisava dizer algo digno de uma ofensa. Foi quando aconteceu. De repente meus lábios mexeram, meus olhos brilharam, imersa na minha própria criatividade e raiva incontida pronunciei, titubeando de emoção:

 - Sua… Sua… Sua foca!

    Ouvi a gargalhada do meu primo, ainda ao meu lado e senti a fúria de minha irmã. Havia conseguido, enfim!

Publicado por: Verônica Almeida | Abril 21, 2009

Espelho

   Domingo. Angústia dói. Não quero ouvir o que meu coração tem a dizer, pois já sei o que é. As coisas vão acontecer, mas quando eu vejo… Elas já aconteceram. Isso me assusta, o tempo me deixa pra trás toda a vez. Porque quando eu penso em correr ele já foi.

   Segunda-feira. A impressão é que tudo está fora de lugar. Ligo o piloto automático e pego o primeiro ônibus que parar. Não quero enxergar dias que provavelmente serão esquecidos.

   Terça-feira. O fato é que não estou mais interessada em quase nada. Um convite aqui, uma obrigação ali. Tudo me parece a mesma coisa, não sinto a diferença óbvia entre o dever e o prazer. É essa minha ausência de motivos, que atravessa cada dia mais uma avenida.

   Quarta-feira. E sei que não posso me esconder. Não agora. A situação ficaria bem mais delicada. Estou me esforçando e me forçando a fazer certas coisas, que contrariam o meu coração.

   Quinta-feira. Tenho fortes ímpetos de desistir de caminhar (e essa idéia me dá um grande alívio). Só que não posso, preciso caminhar e tentar encontrar algo maior. Vou gritar. Não, não vou. Vou pra longe. Não, definitivamente, não vou.

   Sexta-feira. Será que vai acontecer alguma coisa? Alguma coisa grande que seja capaz de trazer cor aos meus dias? Será que alguém vai aparecer de repente? Aparecer pra me dizer algo relevante? A ansiedade cresce tanto se tornando expectativa, que, por sua vez, não passa de decepção.

   Sábado. Música, livros, risadas, pessoas, conversas. Não quero mais pensar porque amanhã… Bem, amanhã é domingo de novo.

   Preciso fugir dessa solidão que me puxa e me puxa com toda a força pra junto de si. Ela quer me abraçar.

   Preciso fugir desse vazio que me abriga com tanto cuidado, obrigando-me a ficar estática. Ele quer me aprisionar.

   Só que não vou deixar.

 —-

 

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus…

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome…

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle…

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

(…)

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado…

 

(Adriana Calcanhoto em “Esquadros”)

 

Publicado por: Verônica Almeida | Abril 11, 2009

Absurdos e links

A política tem se tornado, cada vez mais, pra mim, algo distante. Escândalo atrás de escândalo ninguém se surpreende mais.

Absurdos diários e eternos.

 

——

Estou devendo um negocinho pra vocês:

Blog 100 

Selo: Este Blog é 100!


Indicado por Gleice Couto, que recebeu do Acayrã do Deserto , que, por sua vez, foi indicado por Fabio Santos.

 

 Regras básicas de sobrevivência de um selo:


1- Publicar o selo em seu blog e dizer qual blog recebeu, colocando o link do mesmo;

2- Publicar a história e o motivo do selo;
3- Repassar o prêmio selo a três blogs, sendo que o selo não pode ser enviado ao mesmo blog por mais de uma vez ( assim mais blogs poderão ser homenageados);
4- Publicar no blog o endereço dos homenageados e avisá-los que receberam o selo.

 

Ok, vamos lá! Eu indico:

 

  •  Vestígios do dia. Ah, porque ele é o verso que me falta, a metáfora que nunca acaba, a palavra que me escapa.

 

  •  A vida é uma blog II. Porque o Jorg… Quer dizer, o Conrado sabe imitar o Nhonhô e o Godinez muito bem, tem até uma certa profundidade, não é? (“Verônica não veio!”).

 

  •  Castelo de cartas. Embora desativado, é um dos espaços que mais me identifico, além de ter sido um dos incentivadores disso tudo. Dri, não há um dedo seu aqui, mas uma mão inteira. E o bar é sempre muito bem-vindo!

 

PS: Esse é 100° post.

 

PS again: Pessoas, não bebam! Não sou Verônica Almeida, a nadadora! Parem de deixar mensagens e incentivos porque eu mal sei nadar.

 

 

 

 

Publicado por: Verônica Almeida | Abril 6, 2009

Sonho de consumo

 

Marcelo, Gustavo e Pablo estavam sentados na calçada entediados. Aquelas tardes depois do trabalho já não eram tão boas. A idéia foi de Gustavo, para aliviar o tédio fariam uma brincadeira, um deles daria um tema e os três teriam que responder. Uma espécie de verdade ou desafio, sem o desafio.

Marcelo então deu o tema: Sonho de consumo.

Gustavo começou:

- Meu sonho de consumo é ter muito dinheiro e então comprar três mansões, dez  carros, comprar duas mulheres, dois cinemas, a avenida Paulista se chamaria Gustavo, pois eu a compraria também.

Os dois olharam espantados. Era a vez de Marcelo, um pouco menos pretensioso:

- Meu sonho é ter apenas uma mansão, cinco carros e uma mulher me bastaria, não quero cinemas e a avenida Paulista continuaria sendo Paulista.

Só restara Pablo:

- Meu sonho é dormir apenas uma noite durante doze horas ininterruptas, não preciso nem sonhar. Só dormir.

- Ah, cara! Brincou, né? Eu e o Marcelo realizaremos nossos sonhos em uns 15 ou 20 anos, no máximo, mas você demorará milênios e talvez nunca realize.  

- Concordo. Você poderia sonhar um pouco menos! Acha que a vida é fácil? É essa sua mania, Pablo, de querer muito mais do que você realmente pode, ainda vai bater muito a cara nessa vida.

Publicado por: Verônica Almeida | Abril 1, 2009

Um ou dois versos

 

Se você não pode, eu compreendo

Se você não quer, eu respeito

E se você diz que vai chegar…

Eu espero, te espero

Enquanto escrevo

Um ou dois versos

Em letras de fôrma

Porque não sei de outra forma

Para logo em seguida  

Transformar em pedaços,

Guardar naquela caixa grande e vazia

Que é o meu coração

 

Se você está disposto, eu incentivo

Se você diz que vai, eu acredito

E se você diz que vai demorar…

Eu escrevo, te escrevo

Enquanto espero

Em um ou dois versos

Pra expressar tudo o que eu sinto

Mesmo que você não queira saber

Porque aí então

Basta rasgar em muitos pedaços

Jogar no chão da sala grande e vazia

Que ninguém vai perceber

Publicado por: Verônica Almeida | Março 25, 2009

Nas entrelinhas

 

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Um parágrafo inteiro de reticências.

 

????????????????????????????????????????????????????????????????

Uma vida repleta de perguntas.

 

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Poderiam ser as teclas de um piano, mas são exclamações incontidas.

 

“Palavras são erros e os erros são seus. Não quero lembrar que eu erro também…”

As aspas que não se cansam de aparecer nas muitas citações.

 

(Psiu, não é hora de se justificar. Quem disse que precisa fazer sentido?)

 

Resta apenas o ponto final

 .

Publicado por: Verônica Almeida | Fevereiro 17, 2009

Guerra fria

   Tanto estrago se fez lá dentro e em tão pouco tempo que achou que seu coração sucumbiria. Caminhou devagar pra não pisar em falso. Já havia se machucado muito e um tombo a mais talvez fosse o início de uma crise sem fim.

  Tanta injustiça brotava naquele lugar que pensou mesmo em fugir, desistir, sumir. Novamente caminhou, só que agora mais depressa, pois pisar em falso já não fazia diferença. Sentia raiva dos amigos, da família, dos vizinhos… Até dela mesma.

  O seu lado mais racional a abandonava sempre em momentos críticos, e mesmo o procurando desesperadamente não o encontrava. E se perguntava o que haveria por trás daquelas grades imensas, onde estava presa. Aquelas malditas grades sempre atrapalhavam e não tinha uma visão perfeita do lado de fora. Precisava arrancá-las se não quisesse morrer asfixiada.

  Estratégia. Precisava de uma ou aquilo duraria o resto da vida. A cabeça e os olhos doiam, a garganta também se manifestava sempre que aqueles sentimentos se viravam e reviravam toda uma vida de vinte e poucos anos.

  – Ei, você! Pode ir mais pra lá, por favor?

  Não adiantava pedir. Ninguém ouvia. Faltava sensibilidade nos ouvidos. Faltava esvaziar toda a utopia que outrora se alojara, endurecendo corações, anulando sentimentos.  

 

 

  (Foda-se! Não quero ser aceita nessa sociedade de merda. Eu não me adapto mesmo às tendências de verão. E tenho a impressão que todo mundo sabe ou pelo menos boa parte desconfia.)

 

 

 

Publicado por: Verônica Almeida | Fevereiro 5, 2009

Via Funchal ficou “head over feet”

  Era fato que muitas canções faltariam. Era fato também que o show se concentraria invariavelmente no disco que deu a  Alanis os maiores sucessos “Jagged little pill” de 1995 e no atual “Flavors of entanglement”. Nem poderia ser diferente. 

 

  Entramos quase no horário que estava marcado o show (sempre atrasa!) e num cordão de mãos fizemos longa caminhada até que pudéssemos nos alocar em um lugar favorável. Precisei ser cara-de-pau e pedir licença para muitas pessoas, o que não foi grande problema pra mim. Alguns não deram licença e outros fizeram cara feia, mas foram compreendidos – não é fácil ficar na fila por cinco horas e de repente ser ultrapassado por um cordão de pessoas (folgadas). Chegamos enfim num lugar bacana, próximos ao limite. ”(…) nos levou a mares nunca antes navegados”, diria André mais tarde, já sóbrio. 

 

  A cantora abriu com um trecho de ”The Couch”, mas não aparecia no palco. Apenas na segunda música “Invited” deu as caras, pra delírio do público.

 

  As antagônicas ”Head over feet” (“And don’t be surprise if I love you for all that you are…”) e “You oughta know” (“I’m here to remind you of mess that you left when you went away…”) foram, sem sombra de dúvida, o ápice da apresentação, além da famosa gaita da canadense que faz sucesso em qualquer música. E não pense com isso que as outras canções não foram bem recebidas. O que acontece é que quase sempre um novo trabalho causa certo receio, menos empolgação e alguma estranheza.

 

  Foi o que aconteceu. Das novas, “Version of violence” não foi exatamente o que eu esperava. A maioria do repertório novo não empolgou tanto pelas razões já explicadas, salvo “Not as we” (com aquele piano incrível) e “Moratorium”, embora o público tenha cantado a maioria do atual álbum.  

 

  Faltou música. Faltou “That I would be good”, faltou “These R the thoughts”, “King of pain”….”Hands clean”! Faltou mais 30 minutos de show e um lugar um pouco mais arejado (antes mesmo do show começar as pessoas já pingavam. Ta bom, detalhes a parte). Faltou um pouco mais do que “Thank you so much” ou o improvisado “obrigada”.

 

 

  Apesar dos pormenores, o show foi muito, muito bom! E esta aqui também faltou:

 

Who, who am I to be blue?

Who, who am I to feel dead?
And, who am I to feel spent?
Looking my health and my money

 

And where, where do I go to feel good?
Why do I still look outside me
When clearly I’ve seen it won’t work?

Is it my calling to keep on when I’m unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generosity has me disabled by this
My sense of du – ty to off – er

And why, why do I feel so ungrateful?
Me who is far beyond survival
Me who’s seen life as an oyster

Is it my calling to keep on when I’m unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generousity has me disabled by this
My sense of du – ty to off – er

And how, how dare I rest on my laurels?
How dare I ignore an outstretched hand?
How dare I ignore a third world country?

Is it my calling to keep on when I’m unable?
Is it my job to be selfless extraordinaire?
And my generousity has me disabled by this
My sense of du – ty to off – er

Who, who am I to be blue?

Publicado por: Verônica Almeida | Fevereiro 1, 2009

Sem perspectivas…

(…)

 

Mandaria tudo pro inferno

Jogaria tudo pro alto

(Como se nada importasse)

Caso não tivesse conseqüências

 

Mandaria todos pro inferno

Abandonar-me-ia no precipício mais alto

(Como se a vida se resumisse à minha pessoa)

Se isso não fosse tão egoísta e mesquinho

 

  Espero que eu possa olhar pra trás e concluir que alguma coisa disso tudo valeu a pena.

Porque o que acontece hoje não vale!

 

(Eu não preciso de nada disso!)

Publicado por: Verônica Almeida | Janeiro 18, 2009

Se eu disser…

Se eu disser que está tudo bem

E que há flores no jardim

Se eu disser que não me importo

Com o que pensam sobre mim

 

Se eu disser que a culpa não é minha

E que o silêncio é a melhor saída

Se eu disser que ela caminha

Na melhor direção que poderia

 

Se eu disser que não sinto saudades

E que a ausência faz parte

Se eu disser que gosto dessa cidade

E que me sinto bem a vontade

 

Não acredite!

É otimismo ingênuo,

Pensamento pueril!

Não acredite!

É euforia insana,

Salva de qualquer reflexão,

  Sem nenhuma coesão…

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