Lembro de um episódio engraçado entre a infância e o início da adolescência. Numa tarde qualquer eu e minha irmã brigamos por um motivo qualquer, que já não recordo. Deve ter sido algo extremamente relevante. Meu primo presenciara tudo com um sorriso meio sem graça.
E eu sentia muita raiva, precisava ofendê-la, me vingar de qualquer maneira, ali mesmo, antes que toda a raiva passasse. Precisava dizer impropérios que ela jamais ouvira, algo que a machucasse, que expressasse tudo o que eu sentia.
Eu precisava de um palavrão, de um apelido. Espera! Palavrão não adiantaria, ela não se ofenderia, já conhecia todos. Apelido? Já havia se acostumado.
Pronunciei uma palavra, a primeira que veio e eu nem mesmo a conhecia:
- Neófita.
- O quê?
- Neófita!
- O que é isso?
- É você, Neófita!
Achei que se repetisse a palavra algumas vezes ela ficaria inibida.
- Olha Verônica, vou olhar no dicionário agora, se for um palavrão vou contar pra mãe.
Meu primo ria desesperadamente. E eu torcendo para que fosse algo horrível, mesmo sabendo que me ferraria.
Com o dicionário na mão ela veio em minha direção e leu alto:
- Você deu sorte! “Neófito: Pessoa que recebe ou está para receber batismo, recém-admitido numa corporação; principiante, novato.”
Humm, não deu certo. Precisava dizer algo digno de uma ofensa. Foi quando aconteceu. De repente meus lábios mexeram, meus olhos brilharam, imersa na minha própria criatividade e raiva incontida pronunciei, titubeando de emoção:
- Sua… Sua… Sua foca!
Ouvi a gargalhada do meu primo, ainda ao meu lado e senti a fúria de minha irmã. Havia conseguido, enfim!